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Lágrimas e Névoa – Parte 8/8


30 de Dezembro

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O que me restava de controle fugiu do meu esperado. Destruir o corpo não foi tão legal como nos filmes. Agora tenho idade para ser avô, e nem mesmo filhos consegui ter. Não que eu ainda goste de encarar tudo com drama, mas a essa altura já não há muito que fazer. Aproveitei bastante sim na juventude, mas sabia que ela me deixaria, como os amigos. Nada novo nisso.

Penso que é hora de trancar minha porta e ir embora de vez. Não há mais conselhos a serem seguidos, apenas a raiva que no final fica. As pessoas nunca se importarão realmente com você, os gestos de amizade sempre cobrem interesses próprios. Não espere ficar velho para entender isso.

 Tudo o que quero hoje é descansar naquele lago, sem parar para pensar no depois. Essa cabeça explodindo ainda me mata, vai ser a última vez que uso aquelas drogas, juro. Para garantir, serão todas de uma vez.

Começo a sentir um pouco de alegria. Desde que tudo começou, eu soube como acabaria. Não há sentido em continuar escrevendo, sentirei saudades daqui.

Agradeço esse lugar, Silent Hill…As lembranças, a fé perdida, sonhos dolorosos, família de assassinos, falsas esperanças, ganância, velhice, morte, inferno, paraíso….

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Lágrimas e Névoa – Parte 7/8



29 de Dezembro

Quando você tira um tempo pra fugir da realidade, às vezes pode acabar por entendê-la. O que mais sempre me cansou foi a burrice das pessoas. É difícil você ter muito pra falar e ter que caçar ouvidos que compreendam a tua linguagem. No fim, esses que escolheram pensar acabam em frustração, porque desaprender, esquecer do que você sabe pra ficar equivalente aos outros, além de quase humanamente impossível, é humilhante.
Tento acreditar que se eu fosse alienado e tivesse as mesmas opiniões daqueles que não desenvolveram o cérebro, talvez não tivesse perdido a sanidade.
É triste saber que aprendi todas essas coisas tarde demais, e mais ainda saber que se alguém ler tudo isso algum dia, pode até se comover ou me dar razão. Mas enquanto os anos não passarem, o verdadeiro sentido ainda não será encontrado.

Lágrimas e Névoa – parte 6/8



1 de Dezembro

Com esse moderado tempo de vida que tive, aprendi algumas coisas que boa parte das pessoas prefere ignorar. O ser humano em algum momento da vida acha que mudará o mundo porque de certa forma acredita ser especial, não é. Você ter alguma droga de religião não vai te fazer melhor que alguém, apenas arranja motivo para continuar em frente porque crê que alguém vai te salvar. Outra coisa, fazer drama e achar que é um coitado não ajuda também. Ter pena ou não é indiferente aqui, não resolve. Talvez ajude os outros a te humilharem mais do que de costume.
Não é questão de ter uma visão pessimista das coisas, são apenas fatos concretos que nunca mudaram desde que existimos. E aqueles que se destacam? Bom, muitos dos que eu admirava talvez pensassem como eu, e terminaram com vinte e poucos anos e uma seringa no braço ou com um tiro na cabeça. Não ignorar a verdade pode trazer conseqüências um tanto desagradáveis, isso me faz odiar as pessoas.

Lágrimas e Névoa – Parte 5/8



20 de Novembro

O que vim fazer aqui mesmo? Ah, no começo era procurar meu pai, mas depois de todo esse tempo prefiro acreditar um pouco mais na realidade. Fiquei curioso pra conhecer a famosa Silent Hill que o velho tanto falava. Sempre achei que ele fosse doente mental, mas no fim realmente tinha algo de diferente mesmo aqui. Decidi ficar porque gosto de passar horas olhando o lago Toluka. Decidi ficar porque aqui ninguém quer saber da minha vida. Creio que decidi ficar porque é o lugar perfeito pra deixar lá trás a porcaria de pessoa que fui a existência toda.
Apesar de ser um constante fracasso, eu gostava de admirar as outras pessoas. Fiz o impossível ajudando todas elas, sabia que provavelmente nunca receberia nada em troca, e já sabemos o que aconteceu então. Algumas até arriscam lembrar meu nome. É terrível guardar segredos de outras pessoas, ainda mais quando a maioria deles resultaria em pena de morte.

Lágrimas e Névoa – Parte 4/8



15 de Setembro

Hoje acordei me perguntando, por que não sinto falta das pessoas que conviviam comigo? Saíamos juntos, eu os chamava de amigos. E o povo do bar então, nunca vira pessoas tão felizes! Lembro-me disso agora e começo a pensar se eles eram realmente felizes. Perdi a conta de quantos olhos lacrimejantes fitavam aquelas luzes coloridas em busca de algo que fizesse tudo ficar bem. Perdi a conta de quantas vezes o espelho me viu assim também. E não há como esquecer o homem da porta, parecia não possuir sentimentos, apenas justiça, era o responsável pela passagem entre os dois mundos.
Nesses últimos dias em que a memória decidiu ser minha melhor amiga, tenho rezado bastante. Não gosto de ir à igreja da cidade. Apesar de ser mais um templo de deus, não me sinto bem lá. Ninguém se quer olha para o lado e o padre fala apenas para si mesmo. É realmente difícil construir amizades aqui. Pra mim já começa a não fazer diferença também.

Lágrimas e Névoa – Parte 3/8



2 de Setembro

Encontrei algumas pessoas que se parecem comigo, a diferença é que elas são de poucas palavras, e não se interessam muito pelo que digo. Mas tudo bem, quem se interessa afinal. Algo estranho que percebi nesse tempo todo, é que ainda não vi o Sol. Posso perceber a luz tentando dizer algo atrás das nuvens, mas às vezes fica difícil de ver o que está a um metro a frente. Acredito que na maior parte do tempo seja por opção.
A chave que está comigo era de uma casa que meu pai tinha na cidade. Depois de algum tempo fui me adaptando ao local, quieto, melancólico, e às vezes com ruídos indecifráveis. Tem dias que fica tão difícil levantar da cama, tudo que eu quero é apenas ficar em meu quarto, tenho pouca fome e muito sono, e essa tristeza parece não acabar nunca. Eu sentia algo parecido no antigo bar de todos os meus fins de semana, geralmente após algumas doses ou quando eu decidia que meu salário daquele mês seria para os traficantes.
Nesse novo lugar perdi a vontade de procurar outro mundo pelas drogas, talvez pelo fato de aqui ser o outro mundo. Acredito que seu voltasse a usar, estaria novamente na realidade que todos vivem, e isso não quero nunca mais.

Lágrimas e Névoa – Parte 2/8



13 de Agosto

Não sei se faz muito sentido procurar nomes ou razões. Às vezes acho que vivo no inferno, eis uma palavra que eu costumava usar para a minha vida, mas agora percebo que eu não sabia de nada. Por muito tempo me achei o senhor da razão e superior a todo mundo. Mas depois que vim parar aqui, descobri que talvez eu seja o rei dos idiotas. Nada parece acontecer por acaso. Meus medos tornaram-se reais, e sinto que podem me matar se eu não fugir.
Freqüentemente tenho vontade de chorar, é estranho como fico lembrando do passado e até as coisas felizes parecem me deixar mal. Também não consigo lembrar o porquê de eu ter vindo parar aqui. Apesar de sufocante e terrível, de algum modo não tenho vontade de ir embora. Me sinto melhor do que em casa.

Lágrimas e Névoa – Parte 1/8



06 de Agosto

Há alguns anos meu pai falava desse lugar. Incrível ver aquele sorriso tão cativante em um rosto velho e cansado pelos anos. Nunca consegui entender direito as histórias que ele contava. Apesar da idade, a memória continuava a mesma de um menino que nunca esquece a alegria do primeiro brinquedo ou a tristeza do último dia na escola.
Em um dia qualquer ele simplesmente disse:
– Filho, preciso ir.
Com um desapontamento notável no olhar, logo pensei:
– E há algum lugar pra ir?
Mas não falei nada. Acreditava que naquela idade a solidão e o esquecimento já tinham modificado boa parte dos seus pensamentos. De fato, aconteceu mesmo. Agora, dez anos depois, às vezes ainda tento recordar o seu lugar preferido, ou algo que sempre quis fazer. Mas só consigo perceber o quanto o tempo nos tornou distantes enquanto fingíamos que estava tudo bem.